Para Bertini.
Ossudo como um ruminante na miséria do sertão e longo como o proselitismo dos que crêem. Cabelos que só chegam a metade da cabeça, o que, não sei porque diabos, me lembra judeu. Esse rosto não tem lábios, a impressão que me dá é a de que nasceu sem boca, esse homem, como se alguém a tivesse feito com uma única facada.
Quando eu era ainda menino (e esperava inquieto a chegada dos finais de semana em que minha avó levava-me à "Tia Dom-Dom" pra me comprar a bengalinha de jujuba que tinha uma cabeça de coelho na envergadura) eu tive medo desse homem. Minha avó tinha medo do escuro e tem até hoje, porque vê vultos. Eu tinha medo desse homem. Nos pesadelos roubava todos os meus finais de semana.Pareciam não ter fim, os pesadelos. Esse homem e a bengalinha de jujuba que tinha uma cabeça de coelho na envergadura são os fantasmas da minha infância. Tanto que até hoje vejo pessoas que deveriam ter essa cara. Cara de "dono da bola", que deixa a cabeça do dedo no cimento e vai embora com o brinquedo.
As pessoas não me assustam mais, mas me impressionam. Me impressiono com a falta de beleza nas pessoas e por isso enxergo nelas a cara dele.
A mesa não deve ser desforrada até que o último convidado se ausente.
Ontem não existiu a bengalinha de jujuba que tinha uma cabeça de coelho na envergadura.
J.